Valtinho Disney, quem diria, foi parar em Madureira.
Nos tempos atuais, de camarotes requintados e alegorias supersônicas, soa até normal a presença do famoso cineasta numa escola de samba.
Mas avalie isso em 1941, quando a Portela nem tinha uma quadra para chamar de sua.
Pois aconteceu. Walt Disney estacionou na Estrada do Portela, feito Caetano no Leblon, abancou-se num assento improvisado, e não quis ir embora. E olha que nem era carnaval.
A visita improvável é um dos episódios saborosos de “Trincheira tropical”, livro de Ruy Castro que mostra como o Rio de Janeiro e o Brasil nunca mais foram os mesmos após as diabruras de Adolph e sua corja.

Curiosamente, Walt e seu anfitrião Paulo da Portela andavam ambos entristecidos, antes daquela noite mágica. Disney, com seus funcionários em greve em Hollywood – dos 600 trabalhadores de seu estúdio Buena Vista, metade o achava um pateta (perdão). Já Paulo Benjamim de Oliveira, poeta e ex-carpinteiro, discutira no carnaval com o brabo diretor Manuel Bambambam, e prometera nunca mais desfilar. Apesar do baixo astral, a Portela conquistara o campeonato de 1941, seguida por Mangueira e, em terceiro, a Depois Eu Digo, que daria origem ao Salgueiro.
Fulo com os grevistas, o criador do rato mais famoso do mundo aceitou na hora a proposta da turnê, ideia do magnata americano Nelson Rockefeller. Receberia 300 mil dólares, conheceria o Brasil ao lado de 18 fiéis colaboradores, e passaria outros meses em Buenos Aires, Santiago, Montevidéu, Lima, Guayaquil, Panamá, México.
No Rio, foi recebido por mil crianças no aeroporto, por Getúlio Vargas no palácio Guanabara e pela mocidade carioca na praia. Em vez dos dez dias programados, ficou três semanas no Copacabana Palace.
O giro renderia. O velho Walt se esbaldou nas noitadas da casa 20 do largo do Boticário, no Cosme Velho, onde ouviu Pixinguinha e sua flauta, pouco antes do mestre abandonar o instrumento para tocar saxofone. Também conheceu a dupla musical Jararaca e Ratinho, e rascunhou uma cobrinha e um rato para um novo desenho animado. Até que viu um papagaio gaiato e se apaixonou.
O convite para cair no samba surgiu na primeira semana, em seu primeiro domingão livre. Com os assistentes John “Jack” Miller e Herb Ryman, partiram às cinco da tarde para o terreiro da Portela, naquele glorioso 24 de agosto de 1941.
Na época, a sede da famosa escola era humildona, alugada. Era a casa de Seu Couto, localizada na Estrada do Portela, número 412. Paulo da Portela esqueceu as mágoas e comandou a festa. Para incrementar a apresentação, convocou o amigo Angenor de Oliveira, o Cartola, para levar seus sambas. “Temos que assombrar os gringos”, incentivava Paulo.
Depois que os gringos, assombrados, se acomodaram, Paulo regeu a bateria, sorriu para os músicos da Azul e Branco e entoou:
“Vamos deixar de agonia
E cantar com muita fé
Que o samba tem harmonia
E a cadência está no pé…”
“Muy formidável!”, enrolou-se alguém da trupe de Disney, enquanto o desenhista e futuro parque de diversões batia palmas, empolgadíssimo. Paulo dançou com crianças da escola e prosseguiu na cantoria:
“Não é lá muito difícil
Acertar a marcação
O samba nasce com a gente
Está dentro do coração…”
De acordo com o cronista de “O Globo” João Ferreira Gomes, o popular Jota Efegê, Disney ficou vidrado com as baianas, com suas saias rodadas e colares, sambando na ponta das sandálias. Os vários jornalistas, testemunhas do encontro de Disney, Cartola e Paulo da Portela, viram o cineasta precisar ser arrastado para ir embora. Pelo visto, se gostou do samba, mau sujeito não era.
O americano zarpou, e seus filmes com o malandro Zé Carioca salvaram o estúdio com ótimas bilheterias. Já o ponto daquele encontro cinematográfico segue de pé. Nos anos 1960, o terreiro virou um botequim mitológico, o bar do Nozinho, comandado por Napoleão Nascimento, irmão da quituteira Vicentina.
A velha taberna de Napoleão Nozinho recebia Paulinho da Viola e Clara Nunes, que aprendiam histórias e sambas com Antônio Rufino, fundador da escola de samba e carteirinha número um da Portela. Entre os clientes, João Nogueira, Agepê, Monarco e João Calça Curta. O boteco funcionou até 1982, quando Nozinho cansou e passou o ponto. Para ele, afinal, ser dono de bar não era nenhuma Disneylândia.


