Uma visita ao Cemitério de Coquetéis Bem Brasileiros (C.C.B.B.)

Dunlop

Outro dia zarpei para a Tijuca, e saltei do táxi no século passado. O aniversariante era o Gabriel da Muda e o bar Miudinho, perto do Maracanã, estava apinhado de lendas vivas e amizades da antiga. Batuqueiros, compositoras, aquela nata da malandragem que conheço de outros carnavais. Tinha vagabundo até de Ilha Grande, avalie.

Eu vinha do hospital, e não sei se foi o adesivo de visitante no peito ou a minha aparência, mas o garçom foi na mosca:

– Ô chefia! Aceitas um Melhoral?

Eu ri. E topei na hora. No Miudinho, o drinque Melhoral é uma imbatível mistura de cachaça, gengibre, pau pereira, limão e mel. Caiu bem o Melhoral, que é melhor e não faz mal.

Em volta, o pessoal tomava cerveja de garrafa ou saboreava novidades como o coquetel Marakanã, com ingredientes bem brasileiros como catuaba, caju com gim e gengibre, vinho tinto e até arruda.

Calibrado por aquelas poções, me pus a viajar rumo ao passado: afinal, que antigos drinques teriam cumprido seu papel de levantar a moral dos velhos malandros? Quantas receitas cariocas teriam desaparecido na tal “rolança do tempo”?

Após muita pesquisa e consultas, mapeei aqui uma espécie de cemitério de coquetéis bem brasileiros, ou C.C.B.B. Se bem que acho que a sigla já existe:

* “Berger”

Na Ipanema dos anos 1930, o casal Luís Carlos Prestes com a alemã Olga gostava de receber a turma para um pós-praia regado a esperança, utopias e conspirações. Quem fazia as vezes de barman era o intelectual alemão Harry Berger, como conta o livro “Ela é carioca”, de Ruy Castro. A especialidade de Berger era a mistura de suco de abacaxi com vinho branco geladinho, importado da Alemanha. O drinque, segundo consta, jamais foi batizado. Chamemos então pela alcunha de seu apreciador. Ou, quem sabe, por seu verdadeiro nome – Arthur Ernest Ewert. Sim, Harry Berger era apenas seu codinome de espião internacional.

* “Bombeirinho”

Meia dose de cachaça, meia de groselha, e eis aí o Bombeirinho, um esquenta-goela para todos os bolsos. O drinque avermelhado – daí o nome – se popularizou na década de 1980, a não ser que um bebum mais velho me desminta. Sumido por décadas, vem renascendo após variações e frescuras, com cachaça finíssima, um tanto de suco de limão, o mesmo tanto de groselha e gelo. Tá de fogo? Chama o Bombeirinho!

* “Calcinha de Náilon”

Um clássico, provavelmente mineiro. Batida rosadinha, a Calcinha de Náilon era uma das bebidas de estimação do jovem sambista Wilson Moreira. Consiste em groselha, cachaça, leite condensado, leite de coco e gelo, tudo batido no liquidificador. O drinque doce e cremoso não morreu nem passa bem, mas entra e sai de moda desde os anos 1950.

* “Chuva Ácida”

Copacabana sediou, de 1984 a 1989, um dos inferninhos mais pulsantes da cidade, na rua Barata Ribeiro nº 543. Era o endereço de uma velha garagem, e o ambiente escuro e esfumaçado rendeu um baita nome: Crepúsculo de Cubatão. Havia exibições de Zé do Caixão, frequentadoras trajadas de mergulhadoras (como Fernanda Young) e muito rock inglês, de LPs trazidos por comissários de bordo da Varig. Um dos sócios era o britânico e ex-assaltante de banco Ronald Biggs. O coquetel Chuva Ácida, terror de clientes como o jornalista Arthur Dapieve, consistia em gim, suco de limão e água cristal, ou com gás.

* “Kamikaze”

Um dos drinques que fez a fama do Caroline Café, bar da rua JJ Seabra que durou de 1994 a 2013. Nesse canto entre Lagoa e Jardim Botânico servia-se petiscos de avestruz e variados coquetéis, que naqueles tempos podiam custar 12 reais. A receita do Kamikaze é simples, com três partes iguais de vodca, suco de limão e Cointreau (ou outro licor de laranja). Conhece outra variação? Claro que conhece.

* “Lagoa Cinza”

Mais um clássico do fim do século vinte, popular no Crepúsculo de Cubatão. Variação do Lagoa Azul – vodca, suco de limão, soda limonada e licor azul Curaçau. Bastava substituir o xarope azul por bebidas de outra cor, mais a mão.

* “Pernas de Danuza”

Esse sumiu mesmo. Era consumido aos hectolitros no saudoso bar Monsieur Pujol em Ipanema, onde tocaram Elis Regina e Stevie Wonder (em dias diferentes, claro). Criado pelo amado barman espanhol Lito Abelleira, o drinque misturava cherry, vinho do Porto e uísque, mexido com açúcar.

* “Samba em Berlim”

Esse casamento singelo de refrigerante de cola e cachaça foi lançado em 1942, graças a um criativo americano. Não um barman, mas o mítico cineasta Orson Welles, durante sua passagem pelo Rio, em plena Segunda Guerra – com direito a farrinhas com Grande Otelo e amigas. Como combustível para semanas de noitadas, Orson misturou a aguardente local com a recém-chegada coca-cola, e o Rio jamais foi o mesmo. Estava batizada a bebida “Samba em Berlim”. Era tomar e sair cantando: “Amélie nein tinha a menor vaidade! Amélie é que era uma frau de verdade! Hic!”

Faltou algum drinque raiz? Mande aí. Tim-tim!

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