A pensata surgiu ao ler “No turbilhão da galeria”, a novíssima antologia de crônicas do mestre Alvaro Costa e Silva, o popular Marechal. Estava relaxadão, me divertindo com a página 175, quando a tese me acertou com força, feito a maçã de Newton.
Ao escrever sobre “A comadre Beth Carvalho”, Alvaro recupera a primeira vez que a cantora, a convite do jogador Alcir Portella, pintou pela primeira vez na quadra do Cacique de Ramos, onde Alcir batia uma pelada às quartas-feiras.
Do orelhão em Olaria, quase divisa com Ramos, o então volante do Vasco da Gama telefonou para a amiga e deu a dica. Com Jorge Aragão e uma turma da pesada do lado, ele foi sedutor: “Olha comadre, ninguém vai pedir para você cantar nada. Tem uma comida que você vai gostar, a gente joga um buraco…”
A tal comida, naqueles idos de 1977, era uma senhora galinhada, acompanhada de cerveja de garrafa em doses transatlânticas. Depois o pagode comia.
Me pus a refletir. E se aquele arroz com penosa oferecido por Bira Presidente não fosse de lamber os beiços? Teria havido o Cacique, o Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho? Não fosse a boia caprichada e o tempero na medida, teria Nei Lopes se tornado compositor ou tocaria a vida como advogado?
Nos bons bares do Rio, todos os garçons são chapas, famosos pelo nome, RG e apelido. Quase ninguém conhece seus cozinheiros e cozinheiras. Mas foram eles e suas receitas os responsáveis por algumas revoluções.
Se os sanduíches de pernil e a linguicinha frita do bar da Líder não fossem tão bem servidos, ali em Botafogo, na rua Álvaro Ramos, a turma de Glauber Rocha e Jabor teria filmado tantas cenas marcantes do Cinema Novo?
Não fossem os ingredientes da genial Vicentina e de sua pupila Surica, seria a Portela a escola mais cultuada e vencedora (22 taças) do carnaval carioca?
Não fosse a mineira Alaíde Carneiro, filha ilustre de Pirapora, e seus bolinhos e dobradinhas, teriam Tom Jobim e Jaguar estacionado no bar Bracarense, e ajudado a dar fama ao então pacato Leblon, hoje cenário de filmes e novelas? Sem falar, claro, da carne-seca do Final do Leblon, da feijoada do Bozó e do filé do Luna.
Não fosse o filé robusto com alho frito do saudoso Cosmopolita, ou o cabrito do Nova Capela, a Lapa seria a Lapa?
E o Angu do Gomes? Há uma tese a ser escrita sobre o Rio de Janeiro antes e depois do Angu do Gomes.
Ah, e o Galeto Sat’s? Não fosse aquele pão de alho e o arroz maluco, teria o bar de Copacabana reunido tantos músicos, fundadores de blocos e lendas internacionais, do escritor Anthony Bourdain ao filósofo boêmio Dudu Sarmento?
E, por fim, mas não menos importante. Não fossem o bife e os acompanhamentos do Café Lamas, teriam ali se reunido, em 1895, os jovens esportistas que fundaram o Clube de Regatas do Flamengo? Teria nascido o Flamengo, ai Jesus, sem os pratos do Lamas?
Deem gorjetas aos garçons. Mas procurem cuidar bem, muito bem, de seus cozinheiros e cozinheiras.

