Copa do Mundo é uma época e tanto, mas tem lá seus efeitos colaterais. Nesses tempos de eventos esportivos gigantes, o povo tem a estranha mania de escolher os bares pelas razões erradas.
– Partiu Bar do Cesinha? Petisco raiz, bom televisor…. E sem delay!
– Ô irmão… Já viu a altura dos garçons? Os caras passam na nossa frente e me distraio, um tem até topete.
A turma, com isso, esquece um pouco as razões fundamentais de se sentar num bom bar. Ruy Castro, em seu livro “Carnaval no fogo”, sobre a história e as histórias do Rio de Janeiro, nos lembra:
“Hoje, vários botequins são tombados, seja porque sua arquitetura merece preservação ou porque detém uma parte da herança histórica e cultural da cidade. Ou os dois casos, como o Bar Luiz, que vem de 1887 e foi onde o Rio trocou o vinho, tão lusitano, pelo chope, muito mais carioca.”
Pois foi em outro de seus livros, “Terramarear”, escrito com Heloisa Seixas, que o autor – que não bebe mas conhece todos os tira-gostos do Leblon a Santa Cruz – definiu a alma desse local sagrado:
“Botequim, você sabe, é um lugar perto da sua casa, a que se vai para beber, comer e conversar fiado, em pé ou sentado, calçado ou descalço, vestido ou moderamente pelado, exigindo-se uma mistura equitativa de homens e mulheres, bacanas e vadios, sóbrios e bebuns. Pelo menos, esta é a receita do botequim carioca ― o autêntico berço da baixa gastronomia mundial.”
Para o escritor da Academia Brasileira de Letras, por sinal, alguns dos momentos decisivos da História com H grande aconteceram nas clássicas tabernas ou nos atuais botecos.
Duvida? Então aprenda com a lista de Ruy:
- O Cristianismo, veja só, nasceu ao redor de uma mesa em Jerusalém, com treze homens bebendo vinho, mastigando uns nacos de pão e trocando provérbios, fazendo planos para os dois mil anos seguintes.
- Na Idade Média, as grandes famílias europeias se estratificaram batendo canecos em volta de uma mesa redonda, arrotando sem peias e limpando a boca com as costas da mão.
- Sem a boemia literária dos cafés do Palais Royal, talvez não houvesse a Revolução Francesa ― foi de lá que, meio zuzus, eles saíram para derrubar a Bastilha, em 1789.
- Em 1917, o próprio Lênin deu tchau ao botequim defronte à sua casa, o Cabaret Voltaire, em Zurique, onde jogava xadrez com os dadaístas, e pegou aquele trem rumo à Estação Finlândia, porque tinha marcado com uns bigodudos bolcheviques em Moscou.
- Já em maio de 1956, portanto há 70 anos, Vinicius de Moraes e Tom Jobim sentaram no Villarino, apertaram os ossos e se acertaram, entre uísques e chopes: que tal se compusessem umas músicas juntos? E o mundo jamais foi o mesmo.
E olha que Ruy Castro, sucinto, não se estendeu sobre o Café do Compadre e o Bar Apollo, pé-sujos onde Ismael Silva, Bide e a turma do Estácio revolucionaram o samba dos anos 1920, ou o restaurante e pensão Zicartola, aberto em 1963 perto do Bar Luiz, onde Paulinho da Viola ganhou o apelido. É que Ruy não quer humilhar ninguém, só demonstrar o que os botecos têm.
Foto: Ruy Castro com amigos em bar do Méier. Acervo Pessoal.

