Nessa época de praias concorridas, em que o povo passa o dia contando gaivotas e boiando no mar, nem sempre a gente lembra como tudo começou.
A história, rezam as escrituras, é bem antiga.
Contam que Deus, no quinto dia de trabalho, decidiu criar então os peixes, as imensas baleias e todas as criaturas que vivem no oceano. A água-viva não, que não aparenta ser coisa Dele.
A seguir, Deus olhou em volta e criou os pássaros para encher o céu com vida. E Deus sorriu, e viu que era bom.
Foi no sexto dia em que a coisa complicou. Deus criou o homem e, quando pegou a manha, idealizou a mulher. Pois quando se preparava para descansar…
– Senhor! Senhor!
– Nem vem, Anjo. Até chamei o elevador.
– O Senhor me perdoe. É que nosso departamento de revisão notou um problema.
– Grunf – filosofou Deus, magnânimo.
– É sobre essa última invenção, o casal. Para andar por aí, crescer e se multiplicar, eles precisam reabastecer de hora em hora. Carecem de algum tipo de líquido repositor. É que não fica bem eles se agacharem para bebericar nos rios, ainda mais com aquela folha de parreira pendurada.
Deus soltou uma longa bufada (criando o Alasca), afundou seu chapéu e voltou ao escritório.
– Vamos lá, Anjo. Abre espaço aí, bora criar as bebidas para esses nossos humanos.
Maravilhado, Gabriel viu Deus encher a mesa, enquanto bolava as mais variadas receitas.
– Água, claro. Água do poço, mineral, tônica e gaseificada. Água de coco, sumos, néctar e vitaminas. Suquinho de uva, cenoura, maracujá, melancia e maçã (cuidado com essa fruta). Que haja limonada, laranjada, groselhada, pitangada, cajuada, carambolada e manga. Ah, e açaí.
Deus provou um pouquinho deste último, ganhando um bigode roxo.
– Querem leite? Vamos nessa. Que haja leite de soja, de vaca, cabra, búfala, ovelha e de camela. Leitinho de lhama, égua, zebra e de baleia. O que nos dá mais ideias: iogurtes, lactobacilos, coalhadas, quefires e achocolatados, nham.
– É, Deus é bom mesmo. Porreta.
– Calma que ainda falta. Que haja erva-mate, infusões, chás de ervas e de flores. Refrigerantes, chapéu de couro, café, boldo, xaropes, isotônicos. E, como ninguém é de ferro, licores, vinhos, sidras, ponches, cremes, sangria e aguardentes. E hidromel.
– Falar nisso, Nescau é bebida? Preciso saber aqui para o jogo de Stop…
– Não amola, Anjo. Aos coquetéis! Ponches, caipirinhas, drinques, rabos de galo, batidas, destilados e fermentados. Faltou alguma coisa? Ah, o mate com limão de praia.
Sob aplausos, Deus ajeitou o chapéu e anunciou, com um sorriso:
– Meus filhos, essa hora extra deu uma sede! Quem topa um chopinho?
E assim foram criados, de uma vez, o botequim, a cervejinha de fim de expediente, o colarinho e a gorjeta.
E só aí, no sétimo dia, tendo Deus terminado a sua obra-prima, Ele descansou.

