Ave infernal da poesia, Edgar Allan Poe começou a escrever há 200 anos, e não parou – nunca mais.
Poeta gótico, inventor das tramas de detetive, o gênio americano lançou em julho de 1827 seu livro de estreia, chamado “Tamerlane and other poems”.
Pois um ano antes de morrer, na pindaíba, Poe escreveu suas linhas mais líricas, dedicadas à sua musa mais regular, a cerveja.
Os americanos, que não são de feiquenius, o que que há?, garantem que Poe escreveu o poema para pagar sua bebida, num bar em Lowell, Massachusetts. Era 1848, e os versos –em tributo à cerva estilo ale – acabaram pendurados, com destaque, na parede da taberna Washington, até o original desaparecer, em idos de 1920.
O poema foi salvo, claro, por jornalistas e bebuns da região, que não o esqueceram jamais. Assim escreveu Poe, após molhar a pena:
“Lines on ale”
Filled with mingled cream and amber
I will drain that glass again.
Such hilarious visions clamber
Through the chamber of my brain.
Quaintest thoughts, queerest fancies
Come to life and fade away.
What care I how time advances;
I am drinking ale today.
Arriscando uma tradução livre, ficaria assim (alô mamãe, olha eu aqui traduzindo Poe!)
“Cerveja em versos”
Repleto da mescla de âmbar e espuma
Vou secar esse copo novamente
Visões tão hilárias que esfumam
Até a câmara de minha mente.
A ideia mais insólita, outra fantasia de porre
Ganha vida e logo foge.
Que importa como o tempo corre?
Estou a beber cerveja hoje.
Mal, Poezão, mas é por aí. Lembrei tais versos outro dia, quando estávamos no balcão, tomando uma saideira, e ganhei do amigo Julio Adler um pequeno grande livro de poesia. O título: “Bêbado azul do mar”.
Pedro Cezar, o Pepê, é um poeta quase oposto ao velho Edgar. Onde o americano é soturno, o brasileiro é solar. Poe escrevia embebido das ruas escuras de Londres, das gráficas frias da Filadélfia. Pepê se embriaga no mar do Arpoador, nas ondas da Macumba e Grumari. É surfista, dos bons.
Pois Pepê não faz versos apenas sobre o mundo salgado dos surfistas (Prancha: “Aparelho de repartir azul / Brinquedo de moer mar.”) Vê poesia no verde dos calangos, em ombros caídos, na unha do mindinho e no cartão de crédito. E no ir e vir dos garçons, como os tantos que Edgar Allan Poe conheceu.
Estava com o Pedro no Baixo Gávea, e ali mesmo, de pé no bar da esquina, ele pegou o meu livro e lascou uma dedicatória simpática. Mais tarde, em casa, abri na página 87:
“O garçom tropeça
e os diamantados cristais da bandeja
metralham o chão da festa.
Pausa
Silêncio e imagem se irmanam.
Somente uma pessoa bem amada
concentra tantos olhares quanto um garçom incauto.”
Longa vida aos velhos garçons, aos poetas e aos botequins eternos. No caso da taberna Washington, não adiantou. Virou um Dunkin’ Donuts.

