Uma breve história dos botequins do Rio de Janeiro

Brewteco

1502

Os indígenas da tribo Karió-oca, os primeiros cariocas, já reúnem a parentada e europeus recém-chegados para encher o pote – no caso, cuias. A beberagem fermentada favorita é o cauim, preparada e servida pelas mulheres da tribo a partir da água fresca das cascatas misturada com milho, com caju ou com raiz do aipim. A bebida não é lá grandes coisas, mas a vista para o Pão de Açúcar é estupenda.

 

1550

Em Portugal, o poeta Sá de Miranda registra em versos pela primeira vez a palavra “cachaça” como sinônimo da tradicional bagaceira, a aguardente destilada feita do bagaço da uva. A bebida é degustada nas quintas e palacetes nobres, e ainda não ostenta seus mais de 21.071 apelidos sacanas, como em breve ganharia de Paraty até a Bahia.

 

1565

A cada igreja erguida no Rio, surge uma praça – com uma taberna perto, que ninguém é de ferro. No porto, os armazéns, tendas e vendinhas comercializam comida, ferramentas, utensílios, fumo, vinho e aguardente, ainda de uva. Cidades mais antigas, como Londres, já contavam milhares e milhares de estalagens e cervejarias caseiras, os pubs.

 

1799

O Rio se expande e já existem 334 tabernas e botequins, além de uma dúzia de “casas de pastos”, os restaurantes. Para se ter uma noção, há na então capital do Brasil 37 salões de barbeiros. Nenhum, por enquanto, oferece cerveja aos bigodudos.

 

1808

A fuga para o Brasil de Dom João Sexto (que não bebe) muda a rotina da cidade e melhora a iluminação urbana, com a instalação de diversos lampiões a óleo. As tabernas da capital ainda são lugares infestados de moscas, cobras e chatos. Bebuns brigam o tempo todo. Com a abertura dos portos para os produtos ingleses, surgem as cervejas importadas claras e escuras, que chegavam em barricas. 

 

1836

Já são mais de 1 mil tavernas e botequins na capital. Na rua Mata-Cavalos, futura Riachuelo, é produzida a pioneira “Cerveja Brasileira”, vendida em garrafas. A rolha vem amarrada com barbante de modo a impedir que salte da garrafa e acerte o olho do freguês. Nasce aí a expressão “marca barbante”. A cerveja é feita com milho, gengibre, açúcar mascavo e água, tudo junto, misturado e fermentado por uma semana. 

 

1850

O gelo se populariza. Ao preço de uma pataca, a famosa moeda de prata, o carioca ordena uma caneca de cerveja e ganha um lusitano pires de tremoços. Há marcas como a Ypiranga e Caramuru. Nos Estados Unidos, no velho oeste – na época, chamado somente de oeste, surge uma novidade. O balcão dos saloons é conhecido como “barra”, por sua finalidade de separar o atendente do público. Nasce assim a expressão americana “bar” como sinônimo de bodegas. Refúgio de vaqueiros, jogadores e fabricantes de caixões, os saloons têm uma etiqueta: todo novo freguês deve pedir duas doses. Uma para ele, outra a ser oferecida a alguém. Logo esse modismo americano não é imitado por aqui, vá entender.

 

1873

O carioca passa a importar cerveja alemã. No balcão de mogno do hotel Albion, já se bebe um excelente chope gelado tirado por máquina.

 

1874

No dia 4 de abril, o português Francisco Tomé dos Santos Lamas abre seu café e restaurante na rua do Catete, 295. O café do Lamas, ou café Lamas, com um bilhar ao fundo, se torna ponto de intelectuais, esportistas, e esportistas intelectuais. Seu vizinho é o café Araponga, que some na poeira da história, snif.

 

1887

No dia 3 de janeiro, um santo chamado Jacob Wendling, judeu-alemão, abre na rua da Assembleia, 102, a primeira cervejaria do Rio: a Zum Schlauch (“À Mangueira” ou “À Serpentina” na língua de Beethoven). Logo a choperia seria rebatizada de bar Adolph, e por fim bar Luiz. Volta, bar Luiz!

 

1900

Botequins ganham atrações musicais, palcos e até cinema, caso do Chopp Berrante, nos jardins do Passeio Público, próximo aos Arcos da Lapa. Filmes são exibidos em lençóis estendidos nas árvores do parque. Os bares se espalham do centro ao Jardim Botânico.

 

1921

O café Amarelinho é fundado perto do Theatro Municipal, na “esquina do pecado”. No cardápio, sanduíches, sorvete e chope a granel. Na mesa ao lado, monstros sagrados como Portinari, Dante Milano, Monteiro Lobato, Aníbal Machado, Manuel Bandeira, Oscar Niemeyer. 

 

1923

A artista Tarsila do Amaral, fã de uma mistura de aguardente de cana, limão e gelo, pinta um de seus quadros mais valiosos, o autorretrato cubista intitulado “A caipirinha”. O coquetel de Tarsila é assim batizado, ganha fama no Rio e chega a ser chupetilhado até por Pablo Picasso, em Paris.

 

1928

Há bares para todos os cariocas – do cassino do Copacabana Palace ao boteco do Cruz, encarapitado no morro do Querosene. Para beber umas no Cruz, o povo encara os 111 degraus da comunidade e cruza com as marias de latas d’água na cabeça. A palavra “boteco”, gíria popular, aparece pela primeira vez nas páginas de “O Globo”.

 

1962

Tom Jobim e Vinicius batem papo em Ipanema, no bar e antigo armazém Veloso. Passa uma garota linda, mais cheia de graça, e a nossa música nunca mais é a mesma.

 

1985

A mineira Alaíde Carneiro começa a preparar seus bolinhos no Bracarense, perto da praia do Leblon. Os quitutes da jovem cozinheira em pouco tempo vão parar num artigo de “The New York Times”. 

 

2013

O boêmio carioca Rafael Thomaz sonha com um botequim pé-limpo com cervejas de todos os cantos do planeta. Em vez de ficar sonhando, ele arregaça as mangas. Nasce o Brewteco. 

 

2026

Você entra no bar com sua pessoa favorita, olha em volta e nem percebe: beberrão nada, você é um obstinado estudante de História.