Onde estaria o bar mais antigo do mundo? Ou, mais precisamente, quando estaria?
Há poucos anos, escavadores descobriram uma taverna milenar ao sul da Mesopotâmia, em Lagash, um dos primeiros centros urbanos do mundo, no atual Iraque.
Nesse bar neolítico, com sete salões e mesas enormes, os arqueólogos encontraram vasilhames com cerveja, jarras de bebida, um forno de respeito e um depósito de argila, utilizado para manter comidas e bebidas frias. Com o achado, os cientistas comprovaram que, há 5 mil anos, em 2700 A.C., o povo já se reunia para tomar umas, traçar um peixinho e, na certa, reclamar dos preços.
A taberna, contudo, não estava mais em funcionamento, e aqueles loucos sumérios já não bebiam ali fazia milênios – haviam encontrado, na certa, outro pico para cultuar a deusa Ninkasi, a padroeira dos cervejeiros deles.
Onde, ou quando, está então o bar mais antigo em funcionamento?
Tenho para mim que em algum canto da China ainda existe um intocável Bambu Bar, aberto há 3 mil anos, ou uma vendinha no Egito tocada por 75 gerações, quem sabe chamada Ramsé’s. (No balcão, a plaquinha: “Fiado somente para faraós com mais de 90 anos bebendo com a avó.”)
Os da Europa são manjados. O pub mais antigo de Londres é o Seven Stars, de 1602. Em Nova York, todo mundo brota no Fraunces Tavern, de 1762, onde George Washington descalçava as botas, quase tão famoso quanto o nosso Café Lamas, de 1874. No Brasil, os mineiros garantem que o bar mais antigo em funcionamento está em Andrelândia, dos tempos de Tiradentes e da Henriqueta Brieba.
Eu mesmo tomei umas num pub e tanto, fundado em 1189 DC em Nottingham, nas terras de Robin Hood. Trata-se do mítico Ye Olde Trip to Jerusalem. Era ali que a turma das cruzadas lambia as feridas. O peixe com fritas veio pingando, perfeito.
Mas bar antigo mesmo fica ali por perto, na Irlanda. Mais precisamente, numa cidadezinha chamada Athlone.
O lugar, existente desde a Idade Média, fica num local privilegiado, na margem mais plácida do rio Shannon. Antes ou depois de cruzar a bela ponte de pedra, o povo se habituou a entrar para assuntar, mastigar um negocinho ou entornar umas canecas.
E o que bebiam? Cerveja verde nada, que esse modismo tem pouquíssimas décadas. Nem a escura existia. Nos primeiros anos da estalagem, nem o uísque havia sido inventado. O povo se refrescava mesmo com o hidromel, a vovó das bebidas alcóolicas, mistura de mel, leveduras e água fresca. Delícia. Era um sucesso, afinal boa parte dos frequentadores era de vikings, muitos deles tão simpáticos que até pagavam.
O estabelecimento, firme até hoje, se chama bar do Sean – ou Sean’s bar no idioma da Irlanda e da Barra da Tijuca. Seu nome original era Luain’s Inn, quando nem a ponte existia, e seu proprietário, Luain Mac Luighdeach, ajudava os peregrinos a cruzarem o rio pela parte mais estreita.
A preservação segue notável. O piso, de tabuleiro de xadrez, é forrado de serragem, e inclinado de modo a escoar a água das eventuais enchentes. As paredes são feitas de crina de cavalo, taipa e argila, com varas entrelaçadas para suportar o frio e as intempéries. Ao lado, ruínas de um castelo do século 12.
A fama do lugar se confirma graças a alguns achados, como um punhado de fichas ou tokens de eras indeterminadas que foram para um museu. Mas há um aspecto do local que segue intocável: a hospitalidade e a camaradagem boêmia tipicamente irlandesa.
“A verdade é que, de uma forma ou de outra, todo frequentador traz alegria ao nosso estabelecimento”, costuma dizer o barman de lá, Timmy Donovan. “Uns quando chegam, outros quando vão embora.”
Foi aberto por volta de 900 depois de Cristo. E só fecha após o último cliente.

