Mestre Renato Sóldon, cearense nascido em 1903, foi um historiador, agente de seguros e colecionador de anedotas de botequins. Neto de humoristas, deixou uma admirável biblioteca de compêndios e almanaques sobre a arte de fazer rir.
Por insistência de seus companheiros de mesa, publicou em 1969 o ensaio “Elogio do boêmio”, que os amigos torciam para que virasse livro. Acabou condensado em quatro páginas enxutas, que integram a antologia “Verve cearense”, disponível nos bons sebos.
O ensaio chegou a ser traduzido para o inglês e francês, e traz qualidades curiosas sobre este personagem que ronda as madrugadas. Mas, afinal, o que define o boêmio profissional, ou amador?
De acordo com a análise delicada de Renato Sóldon, os traços e virtudes do boêmio brasileiro seguem parecidos, neste século XXI.
Confira os melhores trechos da crônica de Sóldon e procure responder: você se considera um boêmio raiz? Ou hoje é brisa que já foi vendaval?
* Ser boêmio…
Boêmio raiz não faz rapapés aos poderosos de ocasião, nem solta galanteios baratos a damas elegantes.
Não anda o boêmio atrás de emprego polpudo, casamento rico, convites para festas. E jamais passa cartas, mensagens ou telegramas hipócritas de felicitações ou pêsames.
O boêmio de verdade não tem ódios. Sempre esquece o mal que lhe fazem. Mas guarda, no coração, os benefícios que recebe.
Entende que a eloquência nada vale sem honestidade. E considera a cobiça das riquezas como indigna dos bravos.
O boêmio só a ele mesmo prejudica, posto que age de acordo com a própria consciência.
Jamais o boêmio faz o que não deseja que lhe façam.
É boêmio ou boêmia quem ama a naturalidade. Ri e chora sem fingimento. Nada faz premeditadamente. Seu grande prazer? Ser útil a alguém.
Não sabe o boêmio o que é ser egoísta. A generosidade do boêmio é maior do que a sovinice do avarento – o que ajuda a equilibrar o mundo.
O boêmio é, em geral, inteligente. Burrice é ser contra ele!
Superando o conceito de que todos nascemos para viver a vida e não para compreendê-la, o boêmio tem o poder de realizar uma coisa e outra.
Ser boêmio é marchar na crista dos acontecimentos, em defesa dos mais puros ideais, os de liberdade e fraternidade.
O boêmio não gosta de segredos alheios, nem faz revelações confidenciais. E gosta mais de circo do que de ópera.
Na cabeça do boêmio, as ideias vivem em desordem, porque os seus pensamentos estão misturados com os problemas humanos.
Ser boêmio é transformar em rosas as pedras do caminho. As alegrias transbordam em seu coração, e ele nunca sabe onde guardar as tristezas.
Se tem emprego, o boêmio é sempre estimado pelos colegas de ofício. Honesto no cumprimento do dever, desdenha do relógio – afinal, quem lhe marca os minutos é o coração.
Ele tem preguiça mental de ser religioso. Mas se enternece diante da humildade do Cristo.
A grande vantagem do boêmio sobre os demais bípedes: ele não sofre de insônia. Dorme tranquilo. E só sonha acordado.
Boêmio, assim, não é o playboy, janota e intolerante que compõe a alta roda da sociedade. É, ao contrário, o homem ou a mulher que sente a vida do povo e dá pelo povo a própria vida.
É na planície que o boêmio se sente seguro. Teme o ridículo das alturas, onde mora a vaidade. E não lhe agrada ver o povo de longe.
Ao mesmo tempo, curte andar sem dinheiro e sem armas pelos caminhos do mundo, como os astronautas pelas estradas cósmicas.
A sinceridade é o seu escudo. A tristeza, o seu demônio. Epicuro, o seu filósofo. Quixote, seu herói. Chaplin, seu artista supremo. E a lua, o seu mundo.

